sábado, 10 de outubro de 2009

O despertar de uma bonequinha

Até hoje não sei se faria de novo. Penso, repenso sem chegar a conclusão nenhuma. O que ganhei com isso? Só uma desesperada gritando a minha porta.
Vou chamar a policía
, ela dizia.
Não sei de nada, essas foram minhas únicas palavras e com tal argumento em defesa era óbvio que eu tinha culpa no cartório. Atendi Helena no portão do edifício onde moro, de pijamas. Ela me atropelou dizendo que conversaria em meu apartamento...

Meses antes, um grupo de amigos e eu nos reunimos numa lanchonete, conversávamos sobre nossas vidas, planos e a insatisfação por ainda desfrutar da companhia dos pais. Reclamavámos de vidas regradas, ríamos dos mais velhos, enquanto dicidíamos alí como não queriamos ser no futuro. Por que preferem engolir mentiras, vendar os olhos a verdade? Por que são tão radicais, os pais? As vezes pode se pagar um preço por isso, pela não conversa, pelo não acordo, as vezes um filho pode agarar-se a seus próprios valores, as vezes ele pode te desafiar e pode se tornar mais forte...

Sabrina saiu do colégio direto para faculdade. O plano? Se formar em administração e trabalhar com o pai. Aparência, compras, carro de presente... Trabalho? Sim, mas apenas por diversão, ela podia torar seu dinheiro sem se preocupar com contas. Manipulada pelos pais? Quem sabe...
O namorado? Mais novo, rico, com carro e apaixonado. Luís fizera a promessa de subir as escadas da Aparecida do Norte de joelhos caso se casasse com sua amada. Segredinho que contara apenas para mim, agora todo mundo sabe...
Três anos e eles quase foram um casal feliz. Sabrina se interessou por outro homem. Mais velho, condição financeira inferior, não era do tipo fazer vontades de uma menininha mimada. Sabrina se apaixonou. Eles trabalhavam na mesma empresa, se divertiam juntos, Sabrina até tentou resistir, mas...
Como ela mesma dizia...
- Ele é igual a mim, é extrovertido, feliz, gosta de sair e se divertir. O Luís é um velho! É indisposto, não gosta de bares, de música e nós brigamos demais.
- É realmente - eu tinha que concordar.
Luís perseguiu-os, inventou mentiras a respeito do caráter de Allan. Os pais da jovem foram envolvidos e envenenados pelo garoto disposto a tudo. Talvez tenha conseguido alguma coisa Luisito...

A família foi contra o envolvimento da filha com o bandido. Pré-conceito?

Numa bela manhã de quinta-feira, véspera de feriado Sabrina não foi trabalhar. Impedida de sair de casa pela mãe. O celular confiscado, fora assim que a prisão domiciliar começara. Os fios do telefone foram arrancados da parede posteriormente... Isolada, Sabrina permaneceu sem comunicação.
A casa da família encontrava-se em reforma, sendo assim, as noites eram passadas no escritório aos fundos da residência. Roupas e pertences eram mantidos dentro da casa. No dia seguinte, pai, mãe e irmã saíram. O sobrado fora trancado, evitando assim que Sabrina se aproximasse. Ela podia circular apenas pela garagem, piscina e escritório.
Um monte de areia localiza-se abaixo de uma das janelas. Rebeldia? Sabrina afundou os saltos do scarpin na tentativa desenfreada de entrar em casa. Os transeuntes na rua observavam-na curiosos através das grades no portão. Sabrina sempre fora "louca das idéias."

Perseverança, ela venceu? Entrara na casa como um moleque travesso e consertara os fios do telefone...

Agora um detetive vigiava a garota por todo o lugar que fosse, ou pelo menos, a mãe a fizera acreditar nisso... Ela nunca saberia ser verdade ou não.
A biblioteca da faculdade passou a servir de ponto de encontro para Allan e Sabrina. Foi assim que tudo fora planejado...

Os amigos se reuniram no Bobot´s para mais um lanche antes das aulas. Nenhum de nós acreditou quando Sabrina nos comunicou o que faria. Ela não seria louca, seria? Vamos rever os conceitos... Dinheiro, carro, faculdade, compras e por aí vai...

- É muita responsabilidade...
- Você é doida!
- Ela não largaria tudo o que tem... - diziam as amigas.

Comentários, opiniões, fofocas. Tudo indicava que não.

Porém me assustei quando percebi ser verdade. E foi pior ainda quando me vi envolvida, ajudando com as malas, carregando-as pela rua. Oito malas! Muito discreto para quem vai fugir...
A bagagem de Sabrina permaneceu comigo até o dia seguinte. Outra mochila e uma enorme sacola chegou em minha casa na tarde seguinte, Sabrina veio junto. Nós duas esperamos Allan na entrada do edifício onde moro...
Malas, porta-malas, abraços e agradecimentos, adeus, foi assim a despedida. Rápida e prática.

E eles se foram...

Eu permaneci ali, envolvida pela agonia. Ela foi para outra cidade. Eu não sabia a localização exata e sentia os minutos passarem antecedendo a confusão prestes a estourar...

Quando o interfone tocou fui atender Helena, a mãe de Sabrina, de pijamas. Ela me atropelou...
Em casa: choro, escândalo, pedidos e ameaças. Arrependimento?

Ela fez o que ninguém imaginou.
Reprimida. Injustiçada.
Ela tomou medidas que mudaram sua vida para sempre, mesmo que no futuro volte atrás.
Ela desafiou quem cruzou seu caminho.
Venceu!
Agora, aproveita a liberdade adquirida.
Faz besteiras, piercings e tatuagens.
Alguns a julgam...
Talvez tenha "despirocado," mas eu a entendo perfeitamente...
!LIBERDADE!

Hoje não posso atender o telefone e sei que se um dia Sabrina voltar não poderei mais visitá-la. Ah! Também me escondo de seus pais na rua, pelo menos até a poeira baixar... Vez ou outra penso nas consequências. Remorso? Nem eu sei... Essa foi a coisa mais louca que fiz em toda minha vida, talvez o começo de uma revolta, minha revolta, num futuro... Me orgulho? Não, mas também não me envergonho. Foi emocionante. Podem dizer que não tenho coração, que não pensei na família, mas meus valores já são invertidos e minha experiência em opressão é grande... De certa forma são em atitudes desesperadas que as pessoas crescem e amadurecem, tanto em Sabrina, como em Allan e pais de ambos foram cravadas marcas aquela noite. Em minha família e em mim que presenciamos também, de certa forma alguma lição todos tiramos disso...


Baseado em fatos reais



Texto reformulado em:
Inicío: 11/10/2009
Término: 12/10/2009 as 03:52h.
* Texto original escrito em 08/07/2008

Personagens:
Sabrina e Helena Akemi
Allan Linddgger
Luís Begliomini



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